segunda-feira, 20 de maio de 2013

Ensaio sobre o vício de comentar





Mas tu mudaste o título ao blogue?

— Sim, eu sei, isso não se faz.
— Não se faz mesmo! Ainda por cima, dás tu conselhos sobre computadores e não sei que mais. Grande gaffe!
— Tudo bem, admito. Não se deve fazer isto. Mas apeteceu-me.
— Porquê?
— Porque queria este título.
— Que não quer dizer nada.
— Alguma coisa quer dizer. E já o tinha usado. Foi uma espécie de recaída.
— Nem sei o que dizer.
— Não digas nada.

O que quer dizer Lisboa?

Que pergunta tão parva, dirão alguns. Aliás, dirão muitos. Quase todos.

Mas tem razão de ser. Lisboa quer dizer coisas diferentes para pessoas diferentes.

Para começar, quer dizer "capital de Portugal". E outras coisas: "capital do distrito de Lisboa", etc. Mas isto, no fundo, não explica nada. Fisicamente, a que se refere a palavra Lisboa?

Alguns dirão que a pergunta é estúpida, não só porque todos sabem o que quer dizer Lisboa, mas porque o referente duma determinada palavra é uma espécie de mito. As palavras não se referem a nada. São peças dum sistema que só significam no âmbito desse sistema. (Esta opinião é um vírus que provocou umas epidemias há umas décadas, mas já está a passar. Nem foi preciso vacina.)

Pois bem, pensem lá então no que quer dizer Lisboa.

A cidade. Muito bem. Pensemos nessa cidade. Onde acaba? Nos limites do concelho de Lisboa? Os limites são bem conhecidos e, para dizer a verdade, sofreram uma alteração há pouco tempo que teve dedo de quem escreve estas linhas (e de muitos, muitos outros, claro).

Mas será isso? Quer então dizer que quem vive em Moscavide não vive em Lisboa? Muitos lisboetas diriam que sim: quem vive em Moscavide vive em Moscavide, não vive em Lisboa. Qual é a dúvida? A dúvida, amigos, é que se perguntarem a uma pessoa do resto do país se Moscavide é Lisboa, essa pessoa irá fazer cara de espanto: a resposta é óbvia e é sim.

Pois, entendamo-nos: às vezes, quando dizemos Lisboa, queremos dizer um território (e tudo o que está por cima e por baixo), com os limites do concelho. Mas também queremos dizer uma centralidade, um nome que foi sendo dado a uma cidade e um concelho cujos limites foram sendo alterados ao longo do tempo. Sobral de Monte Agraço já fez parte do concelho de Lisboa!

Lisboa também quer dizer toda a área urbana, todo o aglomerado, toda a Grande Lisboa. É disto que falam os não lisboetas quando falam de Lisboa. Às vezes, dizem: "não gosto nada de Lisboa" e querem dizer apenas "não gosto nada de grandes cidades". Ou algo do género.

E Lisboa quer dizer também o centro do poder. Quando um madeirense fala do poder de Lisboa, não fala da cidade, do território, nem sequer dos lisboetas. Fala dum conjunto de instituições cujas sedes até estão, na sua maioria, dentro do concelho de Lisboa, mas isso é algo secundário.

Depois, Lisboa quer dizer também todo o conjunto de ideias, frases-feitas, poemas, romances, investigações, estatísticas, pessoas, visitantes, fotografias, relatos, ódios e amores — e tudo o mais de que se faz uma cidade.

Respostas certas há muitas. A resposta mais errada que conheço é dizer "Lisboa é isto que estou a dizer, e não há discussão". Para o mal e para o bem, há sempre discussão.

(Já agora, lisboeta, o que quer dizer?)

domingo, 19 de maio de 2013

Será que o Facebook me vai deixar partilhar isto?

Amigos e curiosos e outras pessoas que por aqui caem desprevenidos: já repararam que o Google Plus é mais bonito e mais fácil e tudo o mais do que o Facebook? Só que, enfim, não tem o picante do Facebook, porque lhe faltam as pessoas. É uma espécie de Facebook bem-comportado. Mas vale a pena experimentar nem que seja para perceber o que é um Facebook clean e lean.

(— "Fala português, pá!"
— "Tudo bem: para perceber o que é um Livroface limpo e leve. Está bom assim?")





A relação erótica entre línguas

Pois que com este título as "línguas" que muitos imaginam serão outras — mas, não, este post tem mesmo a ver com línguas-idioma e não com línguas-órgão.

Na sexta-feira, fui assistir a uma conferência de Manuel Rivas, no Instituto Cervantes, por ocasião do Día das Letras Galegas. (Já agora, o "í" está correcto, porque este nome está em galego, por mais português que possa parecer aos desprevenidos.)

Fui com alguns alunos e, para alguns, uma das curiosidades da conferência foi ouvir alguém a falar em galego, aquele idioma rumorejante que para um português soa a português bem nortenho misturado com um não sei quê de Brasil e de floresta brumosa e de vogais bem mais cheias do que as nossas.

Pronto, temos de admitir: soa também muito a português falado por um espanhol, mas isso é porque temos os ouvidos pouco treinados. No final da conferência, um aluno mexicano disse-me que nunca tinha ouvido ninguém a falar galego e que, por momentos, pensou ser uma tentativa frustada de falar português. Mas, felizmente, alguém o desenganou rapidamente...

As histórias que Manuel Rivas contou ficarão para quem lá esteve. Fomos desde as agruras da Cultura desde o Iluminismo até às agruras dum vedor honesto à procura de água em volta da casa dos pais do escritor.

Mas vamos então à tal relação erótica entre línguas. Os alunos de uma das disciplinas que dou estão a fazer um trabalho de investigação sobre tradução. Uma das alunas (uma senhora cultíssima com quem aprendo muito mais do que ensino) está a estudar, para esse trabalho, a auto-tradução e, assim, perguntou a Manuel Rivas que sensações tinha ao traduzir os seus próprios textos para castelhano.

Manuel Rivas contou um episódio curioso relacionado com um dos livros que auto-traduziu, para explicar como tinha sido difícil traduzir um episódio concreto, que só lhe saía bem em galego, por ser a língua em que tinha as recordações em que se baseara para o escrever. Mas logo explicou que, depois de deixar o capítulo repousar um pouco, a tradução saiu-lhe naturalmente. Continuou a dizer que, para ele, a relação entre línguas "é uma relação erótica, não competitiva, uma relação sinestética e que alarga o olhar" (cito de cor).

Ora aqui está uma frase que não deixa de ser saborosa para um tradutor: trabalhamos no local onde as línguas têm relações eróticas e o que fazemos alarga o olhar (a "mirada").

Ouvir Manuel Rivas também alarga a mente e o olhar — e alarga-nos o ouvir, com as cócegas que faz nos ouvidos uma língua tão próxima da nossa como o galego.


Manuel Rivas (fonte: Wikipédia).

quinta-feira, 16 de maio de 2013

Lista de verificação para entregas de traduções por email



Versão 0.5 
Sugestões? 
Comente esta mensagem. Obrigado!


Depois de rever e antes de criar a mensagem de entrega:
☐ Ler as instruções do cliente.
☐ Abrir o ficheiro final e olhar para todas as páginas.
☐ Correcção ortográfica do ficheiro.
☐ Criar mensagem de entrega.


A mensagem de entrega já está escrita:
☐ O projecto está referido de forma bem visível.
☐ Abrir o anexo para termos a certeza de que está lá.
☐ Releitura e correcção ortográfica da mensagem de entrega.
☐ O email é o correcto?
☐ É necessário colocar mais endereços em CC?


Algumas horas depois de enviar:
☐ O cliente confirmou?
☐ Enviar factura ou assinalar para facturação mensal.
☐ Actualizar bases de dados.
☐ Arquivar ficheiros. 

Para quem gosta de aprender porque sim

Para quem gosta de aprender porque sim e gostava de andar nas melhores universidades do mundo, pode usar esta ferramenta:


Diálogo

— Mas tu estás a passar-te? Que raio de tamanho de letra é este?
— É pá, o importante é o conteúdo.
— Não sejas tonto, o conteúdo só é importante se o conseguirmos ler!
— Sim, ocâi, mas o importante é a lista de verificação lá em baixo.
— Então, troca, põe a lista em cima e a nota em baixo.
— Sim, eu compreendo, mas agora já está, não vou alterar o post.
— Tudo bem, mas que não se repita! E, já agora, nunca mais escrevas "ocâi" em vez de "OK", ok?


Lista para ler antes de entregar um trabalho de tradução

Ora, eu devia ter um blogue só para assuntos de tradução. Outro para posts sobre livros. Outro para outros assuntos. Mas como não tenho tempo e isto não é um blogue profissional, não vou cumprir uma das boas práticas na escolha de temas para blogues: limitarmo-nos a um tema. Acima de tudo, gostava que este blogue fosse útil para quem o ler (e não excessivamente aborrecido). Enfim, esta prelecção toda só para dizer que vou escrever uma coisa que se dirige a tradutores, ou melhor, a futuros tradutores. Vem isto na sequência duma aula que dei sexta-feira passada (da disciplina de divertidíssimo nome "Prática da Tradução em Assuntos Empresariais de Espanhol para Português), em que falámos de procedimentos mínimos para um tradutor freelance. Ou seja, aquilo que um tradutor nunca deve deixar de fazer. Prometi que iria dar-lhes a lista por escrito, e podia fazer um PowerPoint, um PDF, um ficha e dar-lhes através do Moodle, mas, enfim, esta lista é útil para mais pessoas e aqui fica, publicamente, a sua parte final (o resto irá mais tarde). Se alguém tiver alguma sugestão, já sabe o que tem a fazer...

(Já agora, perante isto, haverá quem diga: mas quando traduzes fazes sempre isto tudo? Se não faço, devia. Já falhei nalguns pontos destes. Por isso, digo: não falhem... E mesmo que não façam uma vez e a coisa corra bem [ou façam tudo e a coisa corra mal], não se esqueçam que isto são estratégias para diminuir ao mínimo o risco das coisas correrem mal. Não são eficazes a 100%.)

Tudo o que vem já a seguir tem muito que se lhe diga. Mas esses pormenores ficaram na aula. Alguma vantagem tem de haver em ser aluno de tradução...

Ler esta lista antes de enviar uma tradução já feita e revista

a) Ler de novo as instruções do cliente (que convinha estarem concentradas num só local, organizado por nós; não podemos esperar que o cliente seja organizado).
a) Criar os ficheiros finais (conversões, etc.).
c) Abrir o ficheiro no formato final, de entrega, e olhar para todas as páginas à procura de imagens ou partes de texto por traduzir — ou, se o formato de entrega for bilingue, abrir num formato diferente daquele em que traduzimos (por exemplo, em Word, se traduzimos em Trados ou memoQ). 
d) Usar o corrector ortográfico uma vez mais (já devia ter sido utilizado no momento da revisão).
e) Escrever a mensagem de entrega em resposta a uma mensagem do cliente e verificar:

  • Referimos que projecto estamos a entregar?
  • Estamos a enviar para o email certo?
  • O cliente pediu para colocar algum email em CC?
  • Colocámos o anexo na mensagem?
Pronto. Estamos prontos. Toca a carregar em:



Depois de entregar
a) Confirmar que o cliente recebeu a tradução.
b) Arquivar no local correcto e actualizar a lista de projectos.
c) Enviar a factura (ou assinalar na lista para facturação mensal) em mensagem separada.

E, depois, responder a eventuais dúvidas... Mas isso fica para depois.

segunda-feira, 13 de maio de 2013

Como criar um site bonito em poucos minutos

Quem precisa dum site, mas não tem tempo nem dinheiro para grandes conteúdos, pode usar este serviço elegante: https://www.strikingly.com/.

Um site, uma página, um bom efeito. Fica aqui como ideia.